Continuando a saga para rastrear os motivos da desafinação coral, refleti sobre o que tenho ouvido em ambientes fechados quando chega a hora de cantar o “Parabéns a você”

 

Como definir? A melodia se reduziu a 2 ou 3 intervalos que em nada lembram a melodia original e mais um salto estranho no trecho “muitas felicidades”. Algo meio falado e meio cantado, em registro grave e gritado. Um sintoma claro de que não nos preocupamos com a qualidade quando cantamos em grupo.

 

Parabéns Desafinado.png

 

Inclusive me lembro de ser orientada em cursos na década de 90, a incluir o “Parabéns a você” em testes de admissão de crianças para os coros. O que aconteceria se eu mantivesse essa orientação para selecionar crianças razoavelmente afinadas hoje?

Por outro lado observo o paradoxo de que, em linhas gerais, enquanto a música vocal em grupo declina, os programas de música para solistas, de todas as idades, se desenvolveram a todo vapor nas emissoras de TV aberta. Ali são reveladas vozes incríveis e talentos insuspeitos.

 

Por que nos submetemos ao raso quando o assunto é qualidade musical do coro?

 

 

Cantar afinado requer empenho!

Sean Hutchins, neurocientista e diretor de pesquisa do Royal Conservatory of Music, em Toronto, compara o canto com afinação precisa a jogar uma bola de beisebol. Exige uma complexa coordenação muscular e um “timing” preciso para lançar a bola com a trajetória correta. Se você errar em qualquer etapa do processo a bola não vai chegar ao alvo. “O mesmo tipo de coisa está acontecendo quando você está cantando“, disse ele, “e ainda por cima, isto tudo acontece dentro de você“. Isto torna muito mais difícil.

 

 

Afinação Precisa.jpg

 

Você seria capaz de identificar as possíveis causas da desafinação do seu coro?

 

Partindo do princípio que, em muitos casos, os motivos não são conhecidos pelos próprios regentes, organizei alguns pontos que observei ao longo de nossa experiência na Academia Concerto com coros não profissionais. Estes pontos devem servir  apenas para diagnóstico e não para argumento que justifique as desculpas do mau desempenho do coro.

Se você não leu clique AQUI para acessar o primeiro post da série.

Neste post trago mais 6 pontos:

 

1


Falta de investimento de tempo e energia para o desenvolvimento da audição, do som que o próprio coro produz . O coro precisa se ouvir enquanto canta e também ouvir o resultado gravado. Os resultados devem ser considerados e analisados. Experimente gravar alguns ensaios e depois ouvir e analisar junto com seu coro. Identifique os problemas de afinação, principalmente onde ocorrem e suas causas. Apenas posicione bem o gravador no ambiente para que o som captado seja equilibrado.  Na era digital a captação da performance pelos celulares é imediata.  O registro cai na rede, sem chance de arrependimentos.

 

2


Falta de padronização das vogais. É preciso muito treino para uniformizar a emissão vocálica, principalmente no Brasil. Havendo coralistas de várias regiões do país, as diferenças de como as vogais são formadas e emitidas são completamente perceptíveis. Aqui está um ponto chave para a unidade vocal íntegra de seu coro. Veja AQUI este post sobre o “blend” do seu coro. Não existe coro afinado se as vogais, que são as responsáveis pela condução do som, não estiverem devidamente alinhadas.

 

3


O repertório pode estar acima da capacidade do coro para o momento. Então primeiro garanta boa afinação nas melodias em uníssono. Depois, cânones são sempre bem-vindos para as tentativas a 2 e 3 vozes, antes de aventuras musicais mais complexas. Saiba avaliar o nível do seu coro e o potencial de expansão sem corromper a afinação. Deixe claro que o desenvolvimento alcançado precisa ser mantido para que o coro assuma novos desafios. Os cantores precisam ter consciência disto. Uma peça simples cantada com afinação íntegra pode impactar melhor a todos, do que uma peça complexa desafinada! Resista à tentação de ensaiar aquela música dos seus sonhos, gravada por um coro profissional e postada no YouTube, antes que seu coro tenha condições técnicas de encarar o próximo nível.

 

4


Baixa capacidade comparativa do que significa ter uma boa sonoridade coral, com precisão na afinação, uma vez que boas referências são raras por aqui no Brasil. É preciso abastecer a memória musical  dos coralistas através de gravações com qualidades técnicas, próximas ao que o regente quer alcançar. Seu coro tem parâmetros para conceituar o que é um bom som coral afinado? Promova rápidas análises após a audição de gravações muito bem cantadas. Faça o exercício de ouvir uma mesma peça, cantada por dois coros diferentes, sendo um com afinação precisa e o outro não. Se a diferença doer no ouvido deles, provavelmente quando forem cantar, serão capazes de perceber quando a afinação caiu.  Autocrítica é fundamental.

 

Não basta interromper o ensaio e dizer para o coro: “não está afinado!”. Quando você retomar o ensaio a afinação cairá novamente. O próprio coro, no decorrer das semanas, tem que ser capaz de perceber quando a afinação cai através da escuta apurada e sensível. Quem tem a responsabilidade de treinar e dar os critérios é você!

 

5


Alta rotatividade dos cantores do coro, que aderem ou deixam as atividades dos ensaios sazonalmente. Isso dificulta que o grupo se desenvolva numa unidade íntegra e gradual, pois há sempre novos que precisam das primeiras instruções vocais. Esse é um obstáculo para que você alcance boa afinação, além de um bom “blend” com seu coro! É preciso ter estratégias tanto para manter um grupo-base que sustente a identidade vocal do coro, assim como para receber novos integrantes, com o devido suporte técnico, para que esta identidade não seja prejudicada. Essa mistura entre grupos de níveis técnicos diferentes dentro do mesmo coro compromete muito a afinação.

 

6


Dicção pobre em língua portuguesa ou estrangeira, resultando num som coral “sujo”. O texto cantado exige que a dicção das consoantes e vogais sejam muito bem definidas e sincronizadas. Eis aqui um ponto de desequilíbrio e desafinação que não é priorizado no cenário coral brasileiro. Além disto, o público tem dificuldade na compreensão do texto e isto contribui para o desinteresse pela música coral: é uma apresentação que não se entende muito bem, há ruídos na mensagem do texto que comprometem a fluência musical e a afinação cai. Este é um trabalho árduo que exige persistência dos regentes: os cantores precisam ter informações e treinamento suficientes para dominar a emissão do texto que está sendo cantado.

 

Agora é a sua vez! Mãos à obra para trabalhar a afinação do seu coro!

 

 

Escreva para mim, nos comentários, seus resultados ou suas dúvidas!

 

Acompanhe a continuação no próximo post, “SEU CORO DESAFINA?” – Parte 3. Inscreva-se abaixo para receber nossas atualizações!

Até breve!

 

Sou Lana Bernardes, maestrina

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Tive minha primeira experiência com a regência coral aos 11 anos no coro juvenil da igreja, numa substituição de emergência. Depois daquele, muitos outros finais de semana vieram em que tive que responder: “Não posso sair…tenho ensaio!”. Durante esse tempo construí minha experiência como coralista e regente, investindo na minha paixão pelo canto coral. Sou formada em Regência Coral, uma das fundadoras da Academia Concerto, onde tenho a oportunidade de treinar e ajudar pessoas comuns a chegar aos palcos e até representar o Brasil em Festivais Internacionais. Atuo ainda como Empreendedora Digital e sou especialista em levar seu coro ao próximo nível, sem perda de tempo e com qualidade!

 

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3 comentários em “Seu coro desafina? Parte 2

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